A casa foi pensada em 3 peles diferentes: a primeira em estrutura de aço e telha sanduíche, protegendo todo o elemento do sol e outras intempéries, a segunda em tijolo de bloco de terra compactado, mantendo o conforto térmico interno ao longo do dia e noite; a terceira em drywall para passagens de instalações e vedação de ambientes privados e/ou de serviço. A ela dei o nome de “circu.lar”, por conta do item mais questionável do projeto, o “excesso” de circulação, interna e externa. Esse que foi sempre um aspecto negativo para muitos construtores e projetistas no nosso sistema capitalista do lucro inquestionável do metro quadrado construído, não se torna aqui simplesmente um item de programa, e sim um preceito da casa.
Os ambientes de circulação são e devem ser ambientes de permanência, de vivência e de memória. Um corredor com 70cm de passagem e paredes cegas claro vai ser apenas circulação, mas nesse caso, corredores de 1,10m de passagem, com janelas, bancos e paredes geladas se tornam ambientes com grande potencial de uso e sentimentos. Onde brinquedos se espalharão, onde copos e pratos cairão e onde encontros, abraços e beijos ocorrerão.
Todo e qualquer espaço na casa é saboreado.
Da aplicação de materiais, da circulação, das visuais, do uso de luz e sombra, a casa quer apenas uma coisa: te fazer sentir.
Do movimento moderno surgiu a antropofagia, um manifesto para usarmos conhecimentos estrangeiros para alimentar e produzir materiais nacionais e daí em diante se retroalimentar para uma evolução interna: O trabalho “contra o detalhe naturalista – pela síntese, contra a morbidez romântica, pelo equilíbrio geômetra e pelo acabamento técnico; contra a cópia, pela invenção e pela surpresa” e que fosse “puro e regional em sua época”.
Meu objetivo não é negar completamente a arquitetura estrangeira, como o próprio movimento moderno dizia, não precisamos negá-la, mas ela não deve ser imitada.
Os antropófagos defendiam uma nova perspectiva nas nossas criações, que fosse sentimental, intelectual, irônica e ingênua, queriam fazer a arte “pau-brasil”.
Qual será a arquitetura “pau-brasil”? A arquitetura que vai criticar a elite repressiva e classista?
Em um momento em que questionamos como o brasileiro pode ser melhor, talvez seja a hora de olhar para dentro novamente, potencializar nossos meios e nossas pessoas, nossa afetividade e nossa vontade de estar em sociedade, em lugares e edificações que potencializam nossos melhores sentimentos e memórias.
“Tupi, or not tupi?”